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A história de amor entre dois filhos de escravas em SC: Francisco Xavier Vieira & Thecla Maria

Atualizado: 24 de jan. de 2022

Por Juliana Sakae e Gonzalo Villarreal Rocca

Francisco Xavier Vieira nasceu na região de São Francisco do Sul, antiga Freguesia de Nossa Senhora da Graça do Rio de São Francisco Xavier do Sul, no norte de Santa Catarina, no dia 29 de maio de 1857. Sua mãe, Domingas Maria do Rosário, foi uma mulher escravizada1 e seu pai, de acordo com sua própria certidão de casamento, era “incógnito”, algo muito comum entre filhos de brasileiros escravizados. O sobrenome “do Rosário” não era provavemente herança de seus pais. Naquela época, sobrenomes relacionados à religião cristã, como de Jesus, de Deus, do Nascimento, do Sacramento, da Conceição, da Trindade, do Espírito Santo, da Ressurreição, da Graça e dos Anjos, eram dados pelo cartório a mulheres negras escravizadas ou indígenas, consideradas “objeto de desejo sexual dos homens brancos”, de acordo com a pesquisadora Maria Adenir Peraro no artigo Mulheres de Jesus no Universo dos Ilegítimos. “Nem mesmo quando geravam filhos de seus senhores mereciam tratamento diferenciado, pois sua sexualidade não estava a serviço da procriação e da reprodução, tal como as mulheres brancas”.

Francisco Xavier Vieira, por coincidência ou não, ganhou o sobrenome do “senhor” de Domingas, José Vieira Rabello. Seu segundo nome, Xavier, dado provavelmente em homenagem ao santo padroeiro da região, acabou virando sobrenome — talvez como forma de proteger sua origem, já que filhos “legítimos” naquela época ganhavam dois sobrenomes.

Certidão de Batismo de Francisco Xavier Vieira transcrita ipsis litteris por Gonzalo Villarreal Rocca: “FRANCISCO (crioulo) Aos vinte e nove dias do mes de junho de mil oito centos cincoenta sette annos nesta Freguesia da Cidade de Nossa Senhora da Graça do Rio de S. Francisco Xavier do Sul, baticei e pus a santos óleos a Francisco de edade de um mes filho legítimo digo natural de Domingas, escrava solteira de José Vieira Rabello. Forão Padrinhos Camillo Tavares de Oliveira e Maria Vieira da Conceição, solteiros, todos desta Freguesia. O que para constar mandei fazer este termo. Padre finado vigario B. C. de Oliveira. Vigario Antonio Francisco Nóbrega.”

Francisco testemunhou em 1871, aos 14 anos, a aprovação da lei de ventre livre, o que não significaria muito para ele na prática, mas sim para seus filhos. Talvez a proximidade com a abolição da escravatura, que aconteceria alguns anos depois, tenha permitido a ele se casar com uma mulher escravizada, a Thecla Maria de Jesus. Ela, de acordo com sua certidão de casamento, “foi escrava de José da Rocha Coitinho [sic] e filha de Anna escrava do mesmo Rocha, e de pai incognito; nascida e baptizada nesta Freguezia do Senhor Bom Jesus do Paraty” (atualmente Araquari). O casamento aconteceu no dia 3 de novembro de 1883, na Matriz da mesma freguesia, a mútuo consenso (ou pelo menos é o que indica a certidão), sob a benção do vigário Collado Joaquim Francisco Pereira Marçal.

Transcrição da certidão encontrada por João Alfredo Medeiros Vieira em São Paulo
Imagem da certidão original arquivada pela biblioteca mórmon Family Search. Transcrição feita pela especialista em paleografia Leolíbia Luana Linden (arquivista e especialista em paleografia pela UFSC): “Francisco Xavier Vieira com Thecla Maria de Jesus. Aos tres dias do mez de novembro do anno de mil e oitocentos e oitenta e tres, na Matriz d’esta Freguezia do Senhor Bom Jesus do Paraty feitas as denunciações canonicas e sem impedimento algum na fórma do Sagrado Concilio Tridentino¹ e Constituição Synodo², pelas onze horas da manhã, na minha presença, e das testemunhas Sergio Gomes Tovar Albuquerque e João Ribeiro da Silva Bastos, abaixo assignadas, recebi solenemente em Matrimonio, in Facie Ecclenio, por palavras do presente e mutuo consenso, a Francisco Xavier Vieira, filho de Domingas Maria do Rosario, e de pai incognito, com Thecla Maria de Jesus, que foi escrava de José da Rocha Coitinho e filha de Anna escrava do mesmo Rocha, e de pai incognito, o contrahente nascido e baptizado na Freguezia de Nossa Senhora da Graça, e a contrahente nascida e baptizada nesta Freguezia do Senhor Bom Jesus do Paraty, da qual é parochiana. Recebindo as bênçãos nupciais. Do que lavro neste termo. Vigario Collado Joaquim Frco Pereira Marçal <assinatura> João Ribeiro da Silva Basto <assinatura> Sergio Gomes Tovar e Albuquerque <assinatura>“

“Anna, parda e escrava”

A mãe de Thecla, Anna Maria de Jesus, não viu o casamento de sua filha. Anna faleceu no dia 24 de abril de 1881 aos 40 anos de idade, deixando Thecla, aos 21 anos, órfã. Os irmãos de Thecla, Gertrudes Olympia da Rocha (nascida em 1864) e Jorge José da Rocha (1867), receberam por algum motivo o sobrenome do senhor de sua mãe, José da Rocha Coutinho, que é ninguém menos que o filho de um dos maiores escravocratas da região norte de Santa Catarina, Joaquim da Rocha Coutinho, o fundador da Vila de Senhor Bom Jesus do Paraty.

Certidão de nascimento de Thecla Maria de Jesus. Transcrito ipsis litteris por Gonzalo Villarreal Rocca: “Tecla (parda): Aos onze dias do mez de janeiro do anno de nascimento de N. S. Jesus Christus de mil oitocentos sessenta e dous. Na matriz deste Freguezia do Senhor Bom Jesus de Paraty: Baptizei solemnemente e puz os Santos Oleos a parventa Tecla, parda, nascida ha quinze dias, filha de Anna, escrava (parda) de José da Rocha Coitinho. Forão padrinhos Manoel Baial Arens e Marisbella da Graça Sousa. Do que lavro este termo.Vigario Collado Joaquim Frco Pereira Marçal”

Os descendentes de Francisco & Thecla

Francisco e Thecla casaram no dia 3 novembro de 1883 e tiveram nove filhos, todos com sobrenome “Xavier Vieira”: as gêmeas primogênitas Maria da Penha e Maria da Graça (07/09/1884), José (15/10/1885), Plácido (05/10/1886), Francisco (02/12/1887), Pedro (13/05/1889), Maria do Rosário (13/06/1891), Alfredo (24/05/1892) e Gertrudes Thecla (15/11/1893).

Minha avó Maria das Dores Vieira da Silva é filha de Alfredo, (ou como ela o chama carinhosamente, Papai) neta de Francisco. Conta a irmã caçula de minha avó, Míriam do Espírito Santo Heerdt, que Vô Francisco tinha uma fábrica de cal em Joinville: “Meus irmãos mais velhos José e Lourdes conheceram as ruínas desta fábrica. A Lourdes me contava que papai os levou lá. Parece que era localizada em Araquari. O cal, na época, tinha a mesma importância que o cimento hoje.”

O jornal Notícias do Dia, em uma série de reportagens especiais sobre escolas da região, publicou em 2013 um artigo sobre a família que viraria referência em educação na região: “Como naquela época não havia escolas públicas mantidas pelo governo, ou se havia eram muito raras, Francisco, homem zeloso com a educação dos filhos, contratou um professor particular, o português mestre Madeira, como era tratado, para ministrar as primeiras letras à extensa prole dos Vieira.” Francisco não sabia, mas deixaria como legado a paixão pela educação. Plácido fundou a primeira escola de Corveta, em Araquari, que mais tarde receberia o seu nome: Escola de Ensino Básico Plácido Xavier Vieira. Alfredo se tornou em plena Era Vargas inspetor da nacionalização do ensino em Joinville e foi, por 17 anos, professor do Colégio Catarinense em Florianópolis.

Em 1898, aos 36 anos, Thecla morreu de causas desconhecidas e deixou nove filhos ainda menores de idade — as gêmeas primogênitas tinham 14 anos, e a caçula Gertrudes, 5. Francisco se casou novamente, mas sua segunda esposa — uma madrasta amorosa, de acordo com a história oral— não sobreviveu ao parto de seu primeiro filho, tal qual o bebê. Em depressão, em 1905, Francisco morreu um mês antes de completar 48 anos, deixando então as gêmeas, aos 20 anos, responsáveis por todos os irmãos.

Certidão de óbito de Francisco Xavier Vieira. Transcrito ipsis litteris por Gonzalo Villarreal Rocca: “Nº ( ) Aos quatorze dias do mes de Abril mil novecentos e cinco, Neste Districto de Paz da Villa do Parati do Estado de Santa Catharina, em meu cartório compareceu Olimpio Correa de (?) casado (?) residente na Estrada de Santa Catharina, Município de Joinville, Declarou me perante mim e das testemunhas abaixo nomeadas e assignadas na mesma oucasião apresentou-me uma guia do inspector de quarteirão José Marcellino de Sousa residente no Ribeirão da Corda dizendo que no dicto lugar falleceu ontem Francisco Xavier Vieira, viúvo de idade de quarenta e cinco annos, filho natural de Domingas da Costa, foi perecida a morte às seis horas da tarde de moléstia inflamação nos (premolares?), não fez testamento declarou por sua morte diverços filhos e filhas sendo os primeiros cinco de sexo masculino, do sexo feminino três, o qual vai hoje o mesmo sepulta no cemitério público de Paraty e para constar lavrei este termo que assigna o dictos antes e o inspector de quarteirão e (?) Augusto Spottorno testemunha. Eu José Lopes do Nascimento escrivão que escrevi de (?) José Lopes do Nascimento <assinatura>”. A certidão declara que Francisco tinha 45 anos (quando tinha 47) e que o nome de sua mãe era Domingas Costa (e não Domingas Maria do Rosário). Também indica que o viúvo tinha três filhas mulheres quando teve quatro. Ainda não está confirmado se uma das filhas, Maria do Rosário, faleceu antes de Francisco ou se foi outro erro cometido na certidão de óbito pelo inspetor de quarteirão.

Entre os nove filhos, Maria da Penha (uma das gêmeas) foi a única que não teve herdeiros, talvez por ter sido a responsável por cuidar dos irmãos órfãos e, anos depois, dos seus sobrinhos. Gertrudes Thecla ficou viúva com seis filhos, apenas um mês após dar à luz Thecla Olga. As duas irmãs mudaram-se para São Paulo em 1945, motivo pelo qual parte da família se encontra agora naquele estado.

A história por trás da história

(Por Juliana Sakae)

Pesquiso a história de Anna Maria de Jesus (coincidentemente homônima à heroína de Laguna) há mais de um ano, atraída pelo mistério de suas origens. Há alguns meses, quando recebi o resultado do teste de ancestralidade da minha avó (leia mais) com 15% de sangue africano, pensei que Anna era a resposta para minhas perguntas. Como todo brasileiro, quando questionada, respondo que minha etnicidade vem de portugueses, africanos e indígenas, mas sem entender o que isso implica. Como, por exemplo, que você deve descender de escravos e senhores de escravos ao mesmo tempo, algo que nunca havia passado pela minha cabeça.

Comecei a levar a pesquisa a sério convidando meu primo Gustavo Gubert, tataraneto de Francisco e fascinado por história, para me ajudar a investigar nossos antepassados em comum. Fomos a Salt Lake City, em Utah, para conhecer a maior biblioteca de genealogia do mundo e avançar nossas descobertas. Os mórmons são responsáveis pela criação do site Family Search, que permite acesso a uma base de dados com milhões de microfilmes de documentos genealógicos do mundo inteiro. Encontramos pela primeira vez a certidão que comprovava que Anna fora escravizada.

Toda informação adicionada no site Family Search deixa registrado o nome do responsável pelos novos achados. No histórico das atividades da árvore de Francisco Xavier Vieira, encontramos o nome André Felipe de Castro, bisneto de Plácido Xavier Vieira e, portanto, nosso primo de terceiro grau. André, que é de Curitiba e hoje mora na Irlanda, nos enviou diversos artigos de jornal sobre Plácido.

Também entrevistei descendentes de Francisco e Thecla para registrar a história oral por eles herdados. Conversei com minha avó Maria das Dores Vieira da Silva e seus irmãos João Alfredo Medeiros Vieira, Francisco Xavier Medeiros Vieira (autor do artigo D. Cydolina, minha mãe), Míriam do Espírito Santo Heerdt e Emanuel Tadeu Medeiros Vieira. A filha de João Alfredo, Henriqueta Scharf Vieira, que começou a pesquisar sobre seus antepassados há décadas com ajuda do pai, possuía informações de um braço da nossa árvore em comum que eu ainda não havia descoberto, incluindo o nome da mãe de Francisco Xavier Vieira. Ela também possuía o documento que dizia que Anna era escrava de José da Rocha Coutinho.

Quando não havia mais para onde ir, fui contatada por Gonzalo Villarreal Rocca, marido de Marcela Mölk, uma prima distante de terceiro grau que eu ainda não conhecia. Marcela é descendente direta de Anna Maria de Jesus através de uma linhagem de mulheres (Anna > Thecla > Getrudes Thecla > Thecla Olga > Sônia Maria > Marcela). Gonzalo nasceu na Argentina e, ao pesquisar sobre seus ancestrais, descobriu logo sua etnicidade e passou a investigar a genealogia de sua esposa pois, de acordo com ele, “era mais interessante e desafiador”.

Conexão entre os co-autores da biografia:

Juntos, começamos a pesquisar nossos antepassados em comum mais a fundo. A base de dados mórmon Family Search disponibiliza imagens de milhões de certidões da igreja católica (leia mais aqui). Como elas não estão indexadas, é preciso ler folha por folha para encontrar os documentos. Gonzalo pesquisou pacientemente todos os livros de batismo, casamento e óbito de Araquari e Joinville entre 1850 e 1900, e encontrou todas as certidões dos filhos de Francisco e Thecla.

Próximos passos

Existem três tipos de teste de DNA: o mais comum detecta os traços da etnicidade de uma pessoa de uma maneira geral, cujo resultado abre diversas possibilidades de interpretação. Existem testes mais específicos, como os de ancestralidade maternal e paternal. O primeiro testa o DNA das mitocôndrias e mostra a ascendência da linhagem feminina. O segundo, o DNA do cromossomo Y, apenas a linhagem masculina. Baseado na história reconstruída até agora, temos algumas teorias:

Teoria 1: O pai “incógnito” de Thecla Maria de Jesus é José da Rocha Coutinho, seu “proprietário”

Teoria 2: O pai “incógnito” de Francisco Xavier Vieira é José Vieira Rabello, o “proprietário” de sua mãe

Teoria 3: Anna e Thecla Maria de Jesus descendem de africanos de tribos da Nigéria

Como comprovar

Teste 1: Teste de DNA do Ancestry.com ($99) de um descendente de José da Rocha Coutinho para comparar com o DNA já mapeado de Maria das Dores Medeiros Vieira. O teste calcula a probabilidade que duas pessoas têm de serem parentes. Um tataraneto de José se voluntariou para nos ajudar.

Teste 2: Teste do Family Tree DNA de 67 marcadores ($268) de descendente da linhagem masculina de Francisco Xavier Vieira. O primeiro teste vai dizer de qual tribo africana Francisco descende caso ele seja filho de escravo ou descendente de escravo; o segundo irá especificar a origem da linhagem masculina caso o primeiro teste africano se demonstre negativo.

Teste 3: Teste MatriClan de DNA mitocondrial do African Ancestry ($279) de descendente da linhagem feminina de Thecla Maria de Jesus.

Como participar

Se você quer colaborar com a pesquisa e receber o resultado dos testes, participe da nossa vaquinha: Arrecadação de fundos para realização de testes de DNA de possíveis descendentes de Thecla Maria de Jesus & Francisco Xavier Vieira.

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